Sexta-feira, dia 17 de março, 22h.
Entrada Gratuita

6ª e última sessão do Ciclo de Cinema “Aberrações” com o filme “A Noite dos Mortos Vivos” (1968) de George A. Romero.

“Não vos mentimos. Dissemo-vos que tínhamos monstruosidades vivas e palpitantes. Riram-se deles, assustaram-se com eles, contudo, por um acidente de parto, poderiam ser iguais a eles. Eles não pediram para vir ao mundo, mas vieram de qualquer forma. Entre eles, o seu código é uma lei. Ofendam um e ofendem todos.”

É com estas palavras, do filme “Freaks” (1932), que se inicia o Ciclo de Cinema “Aberrações” que propõe a (re)visita de seis obras de culto do cinema de terror, numa perspectiva em que todos os filmes deste ciclo incluem personagens fora do normal, que não estão nos padrões normais da genética, com deformações no corpo, irregulares.
Pretende-se mostrar que a desumanidade mais terrível que podemos conhecer é o nosso próprio eu. Que as figuras deformadas não são os monstros, mas sim os seres humanos, ditos normais. A monstruosidade reside em todos aqueles que contrariam a humanização, os seus valores e princípios.

O termo “género” significa, “a ideia geral de um grupo de seres ou de objectos com características comuns (tema, estilo, etc)”.
O conceito de género, que é um produto da estrutura económica da produção cinematográfica, surgiu durante o período do sistema de estúdios de Hollywood, ou seja, no cinema “clássico” de Hollywood (nos anos 20 e 30).
Cada estúdio especializava-se num género especifico, o que facilitou a sua identificação: Warner Bros. (gangsters), MGM (musicais), Paramount (comédia) e Columbia (série B).
O terror tornou-se a imagem de marca do estúdio da Universal.
Há vários elementos que caracterizam os géneros, como a sua estrutura narrativa ou um conjunto de cenas obrigatórias que o identificam, como uma canção ou uma dança num musical, uma vingança num western ou uma investigação num policial.
Os musicais, os filmes de terror e os filmes de gangsters explodiram todos nos anos 30.

O género de terror, que tem raízes europeias, ganha forma em Hollywood, tendo os estúdios da Universal especializado-se neste género.
Este foi o período em que Hollywood, numa lógica económica e industrial do cinema, criou o sistema de estúdio e das estrelas (star system).
Os filmes expressionistas alemães dos anos 20, como “O Gabinete do Doutor Caligari” (1919) de Robert Wiene ou o “Nosferatu” (1922) de Murnau, influenciados pelos romances góticos britânicos, foram alguns dos primeiros exemplos do género.
Da literatura de terror para o cinema, defini-se o género pelas suas intenções e não pelos seus atributos.

Os filmes de terror procuram uma relação emocional negativa com o espectador, tocam nos nossos medos e ansiedades mais profundos, que tem a intenção de aterrorizar, e muitas vezes o que não é visível é mais assustador do que o que é revelado.
Ou seja, o cinema de terror é muitas vezes sobre o receio do que não se vê. Os filmes de terror aproximam-se mais do nosso sistema nervoso do que a maioria de qualquer outro género.

Por ordem cronológica, para que uma evolução do género e das cinematografias sejam sentidas, este ciclo apresenta as seguintes obras:
“Drácula” (1931) de Todd Browning,
“Frankenstein” (1931) de James Whale,
“Freaks” (1932) de Tod Browning,
“M – Matou” (1931) de Fritz Lang,
“Plan 9 From Outer Space” (1959) de Ed Wood e
“A Noite dos Mortos Vivos” (1968) de George A. Romero.

Para além de tudo o que foi referido em cima, seja a temática, a mensagem ou o género, outro aspecto que unifica estas obras e lhes dá sentido serem vistas neste contexto, é o facto de todas elas se encontrarem sobre o domínio público.
Poderiam ter sido escolhidas outras obras marcantes do género de terror, hoje clássicos do cinema, mas apenas estas seis obras se encontram disponíveis para visionamento de forma legal.

De seres humanos deformados a monstros e de vampiros a zombies, encontra-se um enorme repertório de figuras provenientes da tradição e da especulação literária ou popular neste género cinematográfico.
Este ciclo apresenta filmes bizarros, ousados, incompreendidos no seu tempo, mas que são hoje objecto de um verdadeiro culto. Desafiaram o próprio género cinematográfico com um forte conteúdo social e refletiram sobre a sociedade, que ainda hoje, nos nossos dias, continua achar-se no direito de idealizar conceitos de normalidade.
Enquanto assim for estes filmes continuarão a ser atuais e pertinentes.
Quem são afinal as aberrações da sociedade?

texto de Tiago Resende